{"id":1528,"date":"2017-08-09T16:37:45","date_gmt":"2017-08-09T16:37:45","guid":{"rendered":"http:\/\/uzinabooks.com\/?p=1528\/"},"modified":"2017-08-09T17:36:18","modified_gmt":"2017-08-09T17:36:18","slug":"reflexao-jose-antonio-bandeirinha-proposito-obra-joao-mendes-ribeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/uzinabooks.com\/en\/reflexoes\/reflexao-jose-antonio-bandeirinha-proposito-obra-joao-mendes-ribeiro\/","title":{"rendered":"Reflex\u00e3o de Jos\u00e9 Ant\u00f3nio Bandeirinha a prop\u00f3sito obra de Jo\u00e3o Mendes Ribeiro"},"content":{"rendered":"<p>Texto:\u00a0 <a href=\"http:\/\/uzinabooks.com\/autores\/jose-antonio-bandeirinha\/\">Jos\u00e9 Ant\u00f3nio Bandeirinha<\/a><\/p>\n<p>Foto: <a href=\"http:\/\/uzinabooks.com\/fotografos\/jose-campos\/\">Jos\u00e9 Campos<\/a><\/p>\n<h4>APRESENTA\u00c7\u00c3O DA MONOGRAFIA JO\u00c3O MENDES RIBEIRO<br \/>\nTEATRO DA CERCA DE S\u00c3O BERNARDO 18-V-2017<\/h4>\n<p>Quero, em primeiro lugar, agradecer ao Jo\u00e3o ter-me convidado para a apresenta\u00e7\u00e3o deste livro sobre a sua obra entre 2003 e 2016.<br \/>\n\u00c9 sempre um prazer reflectir sobre a obra de Jo\u00e3o Mendes Ribeiro.<br \/>\nMais agrad\u00e1vel se torna ainda quando essa reflex\u00e3o \u00e9 feita em conjunto com a Maria Milano, com o Jorge Figueira e com o Nuno Grande.<\/p>\n<p>Mas tenho de dizer-vos tamb\u00e9m que me \u00e9 um pouco dif\u00edcil falar sobre uma obra que, sob determinados aspectos, me \u00e9 t\u00e3o pr\u00f3xima. Por\u00e9m, e bem ao contr\u00e1rio do que reza a cartilha da cr\u00edtica hegem\u00f3nica, eu gosto imenso de reflectir sobre as coisas que me s\u00e3o pr\u00f3ximas. Acho que \u00e9 muito necess\u00e1rio e muito produtivo, do ponto de vista do conhecimento, reflectir e discutir acerca das coisas que nos s\u00e3o mais pr\u00f3ximas. Mais! Acho que \u00e9 sobre as coisas que nos s\u00e3o pr\u00f3ximas que vale realmente a pena saber mais, conhecer melhor.<\/p>\n<p>Mas porque ser\u00e1 que a obra de Jo\u00e3o Mendes Ribeiro me \u00e9 pr\u00f3xima? Afinal de contas, os tempos, os espa\u00e7os, os clientes e as ideias que partilh\u00e1mos, embora bem firmes na mem\u00f3ria, j\u00e1 l\u00e1 v\u00e3o muito distantes no tempo, n\u00e3o \u00e9 seguramente por essa raz\u00e3o.<br \/>\n\u00c9 por raz\u00f5es bem mais prosaicas, eu acho&#8230; embora n\u00e3o o pare\u00e7am imediatamente. O que aqui vos trago \u00e9 tamb\u00e9m, e essencialmente, um exerc\u00edcio de procura das raz\u00f5es dessa proximidade.<\/p>\n<p>A Arquitectura do Jo\u00e3o Mendes Ribeiro \u00e9 uma arquitectura universal, ponto. E procura insistentemente os seus padr\u00f5es de universalidade na subtileza do equil\u00edbrio entre a abstrac\u00e7\u00e3o e a procura de um significado absoluto para a Arquitectura, enquanto modela\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o (e consegue-o quase sempre, esse equil\u00edbrio).<br \/>\nPoderia dar-vos aqui in\u00fameros exemplos, extra\u00eddos deste livro e mesmo anteriores. Mas vale por todos os exemplos o caderno que a Uzina Books, a editora, inseriu como anexo. Cada uma das obras vem referenciada por um desenho s\u00edntese. Um s\u00f3 desenho.<br \/>\nEsses desenhos, quase sempre vistas superiores, axonometrias \u00e0 m\u00e3o levantada, procuram um significado em si mesmos, mas, simultaneamente, estendem-se at\u00e9 ao limite inerente \u00e0 compreens\u00e3o desse significado. \u00c9 um &#8220;jogo&#8221; de s\u00e1bia compreens\u00e3o do equil\u00edbrio entre a proverbial necessidade de inser\u00e7\u00e3o na cosmografia dos lugares e a revaloriza\u00e7\u00e3o do objecto como centro de um sistema pr\u00f3prio, que se est\u00e1 a ajudar a criar atrav\u00e9s da Arquitectura. \u00c9 a transforma\u00e7\u00e3o do mundo que se reinicia em cada projecto de transforma\u00e7\u00e3o de uma realidade necessariamente parcelar, na boa tradi\u00e7\u00e3o albertiana.<br \/>\nEsta qualidade que, n\u00e3o sendo exclusiva, \u00e9 muito pr\u00f3pria do trabalho de Jo\u00e3o Mendes Ribeiro, justifica em meu entender duas coisas:<\/p>\n<ul>\n<li>por um lado, a impossibilidade de encaixe taxon\u00f3mico da sua obra, demasiado fiel ao contexto para os talib\u00e3s do conceptualismo objectual, demasiado isolada na sua pr\u00f3pria concinnitas para os paladinos da deriva contextualista;<\/li>\n<li>por outro lado, est\u00e1 na base do \u00eaxito da sua produ\u00e7\u00e3o cenogr\u00e1fica, a cena \u00e9 um espa\u00e7o que se pode aperfei\u00e7oar at\u00e9 ao seu pr\u00f3prio limite, \u00e9 um espa\u00e7o de concep\u00e7\u00e3o aberto ao mundo mas, simultaneamente, \u00e9 um espa\u00e7o de concep\u00e7\u00e3o no qual esse mesmo limite pode funcionar como barreira de isolamento das imperfei\u00e7\u00f5es do mundo.<\/li>\n<\/ul>\n<p>H\u00e1, portanto e sempre, na obra de Jo\u00e3o Mendes Ribeiro, uma convic\u00e7\u00e3o inerente (eu at\u00e9 arrisco, uma convic\u00e7\u00e3o que lhe serve de ponto de partida) \u2014 a convic\u00e7\u00e3o que a sublima\u00e7\u00e3o do contexto (tarefa quase imposs\u00edvel, sobretudo quando lidamos com o contexto portugu\u00eas) come\u00e7a na sublima\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria encomenda (absolutamente dom\u00e1vel e delimitada por natureza).<\/p>\n<p>E essa universalidade, que \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o de base, \u00e9 tamb\u00e9m, em meu entender, a principal raz\u00e3o de inequ\u00edvoca inser\u00e7\u00e3o desta obra no plano universal. Hoje, sem qualquer d\u00favida, a obra do Jo\u00e3o Mendes Ribeiro tem um lugar entre as mais referenciadas obras de Arquitectura Contempor\u00e2nea no contexto global.<\/p>\n<p>Trata-se portanto de mais uma capacidade, a juntar a tantas outras que o talento de Jo\u00e3o Mendes Ribeiro sintetiza &#8211; a capacidade de criar um universo pr\u00f3prio, substancialmente nutrido pela convic\u00e7\u00e3o que a sublima\u00e7\u00e3o do contexto tem necessariamente de come\u00e7ar na sublima\u00e7\u00e3o da obra. \u00c9, nesse sentido, uma convic\u00e7\u00e3o profundamente albertiana, como j\u00e1 disse.<\/p>\n<p>Citando Calvino, quando se refere aos livros, &#8220;Chama-se cl\u00e1ssico um livro que se configura como equivalente do universo, tal como os antigos talism\u00e3s&#8221; . Ora, tamb\u00e9m as obras de Jo\u00e3o Mendes Ribeiro se configuram discreta e veladamente como equivalentes do equil\u00edbrio do universo e, nesse sentido, n\u00e3o podem deixar de ser universais.<\/p>\n<p>\u00c9 assim em qualquer uma delas, marcam presen\u00e7a fiel numa luta contra o tempo da contamina\u00e7\u00e3o, contra a inevitabilidade da degrada\u00e7\u00e3o. Assim v\u00e3o envelhecendo, sempre com a dignidade do sublime.<\/p>\n<p>Mas deixem-me escolher algumas de entre estas obras universais. Deixem-me, mais uma vez, escolher as obras de Coimbra. Porque, tal como a sublima\u00e7\u00e3o do contexto a partir da obra, tamb\u00e9m Coimbra foi, \u00e9, e eu creio que ser\u00e1 sempre, um ponto de partida para Jo\u00e3o Mendes Ribeiro. Voltando a Calvino, e antes dele a Marco Polo, o malogrado viajante veneziano que descreveu as suas viagens, tamb\u00e9m as obras de Jo\u00e3o Mendes Ribeiro se fundam nessa condi\u00e7\u00e3o local para melhor se institu\u00edrem como universais. Olhamos sempre todos os universos com os olhos do nosso pr\u00f3prio universo, que \u00e9 o mesmo que dizer, olhamos sempre as cidades com os olhos que viram primeiro a nossa pr\u00f3pria cidade. Neste sentido, estas obras s\u00e3o universais tamb\u00e9m porque Coimbra (ainda) \u00e9 universal. S\u00f3 para me referir ao arco temporal deste livro, olhemos as obras que conhecemos, as obras de Coimbra:<\/p>\n<ul>\n<li>o Laborat\u00f3rio Chimico, um Museu de Ci\u00eancia que, na verdade, mostra Arquitectura;<\/li>\n<li>a Casa das Caldeiras, a densa complexidade de um programa mitigado, que trepa pela encosta e a transforma num territ\u00f3rio ordenado<\/li>\n<li>a Casa Robalo Cordeiro, a prova viva e vivida que a cidade densa e consolidada pode continuar a ser residencial por elei\u00e7\u00e3o e defini\u00e7\u00e3o;<\/li>\n<li>a Casa da Escrita, outra mem\u00f3ria, desta feita uma mem\u00f3ria cultural e liter\u00e1ria transformada em vida atrav\u00e9s da arquitectura<\/li>\n<li>a Ordem dos Farmac\u00eauticos, a complexidade topogr\u00e1fica da cidade transformada em mat\u00e9ria de sublima\u00e7\u00e3o arquitect\u00f3nica<\/li>\n<li>o Mosteiro do Lorv\u00e3o, o regresso \u00e0 dignidade de um s\u00edmbolo maior da identidade local e nacional;<\/li>\n<li>o Armaz\u00e9m e Escrit\u00f3rios da Ad\u00e9mia, a revaloriza\u00e7\u00e3o dos s\u00edmbolos da produ\u00e7\u00e3o industrial pela qualidade espacial e cultural, algo de que Coimbra tanto carece;<\/li>\n<li>e, finalmente, as Estufas Tropicais do Jardim Bot\u00e2nico da Universidade de Coimbra; embora muito tarde, chega agora algo de que Coimbra tanto carece \u2014 a digna homenagem da contemporaneidade aos momentos mais marcantes de uma hist\u00f3ria gloriosa nos planos art\u00edstico e cultural.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Todas s\u00e3o obras que, para al\u00e9m das qualidades intr\u00ednsecas a que antes j\u00e1 aludi, se caracterizam por uma rela\u00e7\u00e3o intensa e &#8220;desenvencilhada&#8221; com a cidade onde se inserem. Resolvem-na e explicitam-na (\u00e0 cidade). Mas simultaneamente insinuam-se como s\u00edmbolos que se autonomizam, ou seja, s\u00e3o pe\u00e7as \u00fanicas mas simultaneamente s\u00e3o modelos de interven\u00e7\u00e3o na cidade.<br \/>\nN\u00e3o, n\u00e3o estamos em presen\u00e7a de uma &#8220;atitude&#8221; perante a &#8220;quest\u00e3o da mem\u00f3ria urbana&#8221;, ou do &#8220;patrim\u00f3nio&#8221;. N\u00e3o as podemos engavetar numa dessas matrizes de interven\u00e7\u00e3o no espa\u00e7o patrimonial (T\u00e1vora, Scarpa, Souto Moura). S\u00e3o, isso sim, obras que se fundam na envolvente urbana, para se sublimarem a si pr\u00f3prias e, desse modo, sublimarem, na medida do poss\u00edvel, o espa\u00e7o urbano e topogr\u00e1fico onde se inserem.<\/p>\n<p>A obra que Jo\u00e3o Mendes Ribeiro faz por todo o lado cont\u00e9m em si sempre um bocado de Coimbra, e, nesse sentido tamb\u00e9m, \u00e9 uma obra universal.<br \/>\nMesmo a cenografia, que se insere num topos simultaneamente confinado e universal, mesmo a cenografia s\u00f3 podia ter nascido em Coimbra, h\u00e1 cerca de 25 anos atr\u00e1s, com o Amado Monstro no Gil Vicente, ou com as cadeiras do desgra\u00e7ado Teatro Sousa Bastos implantadas como F\u00e9nix renascida (n\u00e3o Fenice), na Pra\u00e7a da Rep\u00fablica. Um monumento \u00e0 decad\u00eancia de um teatro, que visava a renascen\u00e7a do Teatro. Isto tudo numa cidade que ent\u00e3o iniciava tamb\u00e9m o seu triste ciclo de decad\u00eancia. Po\u00e9tica sobre a poesia, sem nunca, contudo, ceder ao decadentismo. Foi esse o ponto de partida para a sua vasta obra cenogr\u00e1fica, hoje mundialmente reconhecida (perdoem-me esta incurs\u00e3o pelos meandros do inside knowledge).<br \/>\nE a cidade, ou o que resta da cidade, entretanto, como se faz? Como se alimenta a si pr\u00f3pria? Com t\u00e9cnica? Com as velhas e novas cartilhas do Urbanismo, que se arrastam como despojos que herd\u00e1mos do Movimento Moderno? Como o lastro tecnol\u00f3gico que ainda e sempre carregamos, das smart cities, dos territ\u00f3rios metropolitanos, dos sustainable energy systems?<br \/>\nMas mesmo esses despojos, por muito obsoletos que sejam, em Coimbra transformam-se e requentam-se at\u00e9 ao abismo da vacuidade, at\u00e9 ao absurdo. \u00c9 claro que esses resqu\u00edcios da velha t\u00e9cnica moderna em Coimbra s\u00e3o ineficazes. Mais, chegam a ser destruidores.<br \/>\nOuvi, h\u00e1 muitos anos, numa conversa corrente de estirador (talvez ele j\u00e1 n\u00e3o se lembre) o Jo\u00e3o dizer serenamente, como sempre foi seu timbre, que a cidade se faz com talento.<br \/>\nA cidade faz-se com talento, Jo\u00e3o, embora n\u00e3o s\u00f3 com talento, eu diria com uma mistura equilibrada de talento e de ordem civil. Porque a \u00faltima alimenta e enobrece o primeiro. Hoje, talvez mais do que nunca, tamb\u00e9m estou ciente disso.<br \/>\nMas obviamente que n\u00e3o \u00e9 com todo e qualquer tipo de talento que se faz a cidade.<br \/>\nTem de ser um talento vocacionado para a ordem, para o sublime, para a concinnitas, para a sistematiza\u00e7\u00e3o das fun\u00e7\u00f5es, para a organiza\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os. Por esta ordem.<\/p>\n<p>E t\u00e3o arredado \u2014 t\u00e3o dramaticamente arredado \u2014 que, quer o talento quer a ordem civil, andam das ruas e das pra\u00e7as de Coimbra.<br \/>\nPor vezes, encontramo-los ao virar de uma esquina, no alcance visual de um enquadramento urbano, na dimens\u00e3o abstracta de um pavimento, no equil\u00edbrio relativo das escalas.<br \/>\nO talento encontra-se a\u00ed, l\u00edmpido, esparso e bem delimitado, aqui e acol\u00e1, normalmente junto das obras do Jo\u00e3o Mendes Ribeiro.<\/p>\n<p>18 de Maio de 2017<\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Ant\u00f3nio Bandeirinha<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto:\u00a0 Jos\u00e9 Ant\u00f3nio Bandeirinha Foto: Jos\u00e9 Campos APRESENTA\u00c7\u00c3O DA MONOGRAFIA JO\u00c3O MENDES RIBEIRO TEATRO DA CERCA DE S\u00c3O BERNARDO 18-V-2017 Quero, em primeiro lugar, agradecer ao Jo\u00e3o ter-me convidado para a apresenta\u00e7\u00e3o deste livro sobre a sua obra entre 2003 e 2016. \u00c9 sempre um prazer reflectir sobre a obra de Jo\u00e3o Mendes Ribeiro. 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